domingo, 15 de janeiro de 2012

Palco


Não importa o lugar. Foi em qualquer um desses bares com Karaokê. Não havia glamour, não havia nada demais. Só um pequeno palco, com dois microfones velhos e uma grande tela que mostrava a letra das músicas. Mas ela não precisava olhar para a tela, pois já sabia seu repertório de cor.

Através de um som tosco, desses parecidos com carro que anunciam produtos nas ruas, ouviu o seu nome fictício ser anunciado. Dirigiu-se ao palco e, por alguns segundos, fechou os olhos. Lembrou dos muitos palcos que subiu na vida, da diversidade dos públicos, e de que, na maioria das vezes, nunca estava sozinha.

Ela subiu o primeiro degrau com cuidado, afinal, aquilo não era um circo e ela, certamente, não queria ser o centro das atenções por causa de mais uma de suas trapalhadas.

A música começou. Foi difícil achar naquelas batidas estranhas algo parecido com a canção que já conhecia há tempos. Mesmo assim, esforçou-se. Como sempre fazia, para esconder o nervosismo, apoiou o microfone no pedestal – eu não sei se você sabe, mas quem está nervoso piora quando percebe que o público percebeu seu nervosismo.

Começou a cantar. E era incrível como sua  voz parecia ainda mais agradável quando combinada ao volume proporcionado pela mistura de microfone e caixas de som. Plantou emoção na letra, na voz. Era uma música lenta, romântica, que nunca havia cantado, nem mesmo de brincadeira. E, apesar de conhecê-la muio bem, quando abria os olhos, evitava olhar para outro lugar senão para a tela onde passavam as letras. Havia um público. Mas o escuro não lhe permitia enxergar as reações. Boas ou ruins, deveriam permanecer no escuro.

Foi então que um buraco no tempo lhe fez algumas perguntas, as quais ela nem lembrava exatamente quais. A única voz que ouvia, naquele instante, lhe fazia algumas cobranças e indagações sobre o porque havia ficado sem cantar tanto tempo, já que era exatamente cantando que se sentia realizada. Se isso a fazia tão feliz, porque teve fim?

Ela sequer lembrava da última vez que tinha entoado alguma música num microfone. E existe uma grande diferença entre cantar, e cantar num microfone... causar sentimento, emoção e comoção nos outros. Isso fazia parte de seu conceito de "cantar". 


A única coisa que ficou claro, ao fim daquela canção, era de que a música não podia parar. Ela já não podia mais ficar sem cantar. Ela precisava entoar, comover, emocionar... se emocionar.

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